Dilma enfrenta seu pior desafio no segundo turno contra Aécio Neves
6/10/2014 13:52
Por Redação - de Brasília e Rio de Janeiro

Pessoal da limpeza deixava tudo pronto para o discurso da presidenta, na noite desta segunda-feira
Atual presidenta da República,
Dilma Rousseff (PT) está diante
do desafio mais difícil de sua vida, se quiser permanecer no cargo,
mostraram as urnas neste último domingo. Após uma campanha no primeiro
turno em que se dividiu entre um aceno à esquerda e o abraço ao
agronegócio,
Dilma chega para a disputa com o preferido dos
conservadores, Aécio Neves (PSDB), que comemoram a vitória do ex-militar
Jair Bolsonaro (PP), como campeão de votos, no Rio, e o crescimento
expressivo da bancada de parlamentares na Câmara Federal, com expoentes
da ultradireita como Luiz Carlos Heinze (PP-RS).
Os bilhões de reais
investidos na tentativa da candidata petista em fazer as pazes com a
mídia hegemônica seguiram para o ralo, uma vez que os meios de
comunicação ligados à direita trabalharam para que o segundo escrutínio
da opinião brasileira ocorresse exatamente com o representante tucano,
apesar da festa em torno da candidata Marina Silva (PSB/Rede
Sustentabilidade). O estrago causado pela ação midiática em peso a favor
dos candidatos do campo reacionário chegou a causar atritos na direção
da campanha petista e levou a presidenta, pela primeira vez em seus
quatro anos de governo, a convidar blogueiros da esquerda para uma
coletiva.
Na balança eleitoral, Aécio Neves atrai pesos pesados da indústria,
dos bancos e dos segmentos mais anacrônicos da sociedade brasileira que,
nas urnas, demonstraram um vigor além do previsto nas pesquisas de
opinião. Estas, aliás, ainda estão tentando compreender onde erraram. A
diretora executiva do Ibope, Márcia Cavallari, negou nesta segunda-feira
que o instituto de pesquisa tenha errado tanto assim nos resultados,
após o crescimento repentino de Neves (PSDB), que superou Marina Silva
com ampla vantagem e foi para o segundo turno com a candidata do PT.
– Essa era uma eleição com mais incertezas. Sabíamos disso desde as
manifestações de junho do ano passado – disse Cavallari, a jornalistas.
Na última pesquisa Ibope, divulgada no sábado, Aécio aparecia com 27% dos votos válidos, contra 24% de Marina.
Dilma
mantinha a liderança com 46%. Segundo afirmou, a diferença dos
resultados de domingo para as últimas pesquisas em alguns Estados não
foi captada porque o eleitor mudou de ideia até o último minuto.
– Nossa última pesquisa havia mostrado um crescimento do Aécio. Esse
movimento continuou após o fim da pesquisa, por isso o resultado oficial
foi diferente. O eleitor teve um interesse tardio por essa eleição –
disse.
A próxima pesquisa deve ser divulgada na quinta-feira, em parceria
com o jornal O Estado de S. Paulo e a Rede Globo. Até o fim do segundo
turno, devem ser divulgadas até quatro pesquisas e, dessa vez, os
institutos esperam captar de forma mais precisa a opinião dos eleitores
que, ao mesmo tempo em que elegeram os representantes da direita
reacionária, também souberam valorizar as bandeiras à esquerda do PSOL,
com mais de 1,5 milhão de votos para a candidata Luciana Genro. Na noite
passada, Genro diz que o partido ainda vai decidir se apoia a
presidenta Dilma Rousseff no segundo turno. Genro afirmou que as
bandeiras defendidas por sua campanha, como os direitos civis da
população LGBT e a taxação de grandes fortunas, continuam pendentes e
que os candidatos que foram para o segundo turno não irão resolver os
problemas do país. No Rio, o campeão de votos do PSOL, Marcelo Freixo,
já adiantou que fará campanha pela candidata à reeleição, enquanto Jair
Bolsonaro, de ultradireita, já mergulha nas hostes tucanas, garantindo
seu voto a Aécio Neves.
Veja, na tabela, como ficou a composição da Câmara dos Deputados:

Fonte:TSE
Derrota no Parlamento
No total, 28 partidos elegeram deputados federais, mas a base aliada
da presidenta emagreceu, após as eleições deste domingo. O PT continua
com a maior bancada nominal, segudo do PMDB e do PSDB, que saiu
vitaminado das urnas. Os resultados ainda poderão ser alterados, por
conta dos processos em andamento na Justiça eleitoral – como no caso do
‘ficha suja’ Paulo Maluf (PP-SP), entre outros. Mas, encerrada a
apuração, o quadro das candidaturas pendentes não têm como alterar de
maneira significativa a distribuição das cadeiras entre os partidos com
representação na Câmara, que aumenta de 22 para 28.
O PT foi a legenda que mais se desidratou, com 18 deputados a menos,
enquanto o PSDB elevou sua bancada de 44 para 55 integrantes. A redução
no tamanho da bancada petista, porém, é insignificante perto do número
de candidatos conservadores nas bancadas eleitas, mesmo naquelas que,
supostamente, representam a esquerda. Segundo o jornalista Sérgio Duran
escreveu em sua página, em uma rede social, “o PT precisa restaurar a
capacidade de diálogo com a população. Dilma não disse ainda o que
pretende no segundo mandato. (…) Tem de descer do salto como Lula sempre
desceu”.
Eleição polarizada
Para o cientista político Antonio Lassance, em artigo publicado nesta
segunda-feira, “um balanço das eleições revela uma disputa acirrada,
palmo a palmo, e muito polarizada, em termos políticos, programáticos e
sociais”.
“No primeiro turno, houve dois grandes perdedores: Marina Silva e os
institutos de pesquisa. Marina perdeu a disputa com Aécio por muito.
Todos os institutos mostravam a candidata do PSB à frente, quando ela,
de fato, esta muito, mas muito atrás mesmo.
Ibope, Datafolha, Vox Populi e tantos outros, segundo o professor
Lassance, “mostraram que andam menos confiáveis que o tarô. Suas margens
de erro reais são absurdas. Na quinta-feira, quando sair uma nova
rodada de pesquisas, a melhor precaução que se pode ter é deixá-las de
lado, para mais e para menos”.
Para o segundo turno, afirma, haverá uma “disputa dura e polarizada
em termos programáticos e sociais entre PT e PSDB. Em grande medida, o
mapa da disputa reforça a explicação sobre o lulismo, do cientista
político André Singer. A hipótese é a de que, com o governo Lula, o PT
sofreu um realinhamento político e também social. Principalmente a
partir das eleições de 2006, deixou de ser um partido principalmente de
classe média e passou a ser um partido cujos votos dependem, sobretudo,
dos mais pobres”.
“Por isso, as votações no Nordeste e Norte do país, nas cidades mais
pobres do interior e na periferia das grandes cidades garantiram a
grande votação de Dilma. Se, em 2010, quando Singer formulou a tese, a
principal crítica que poderia ser feita era a de que ainda era cedo para
se afirmar tal coisa, as eleições de 2014 insistem em uma tendência que
não parece ser mero acaso. O que era uma hipótese, em 2006, virou uma
tese difícil de ser desmentida, depois de 2014. Esse realinhamento era
tudo o que o PT sempre quis: ser um partido do povão. A contradição das
contradições é que, com a transformação do Brasil em um país
majoritariamente de classe média, a sorte do PT tende a ficar cada vez
mais difícil nas eleições”, afirma.
A única saída se o PT quiser evitar esse movimento de gangorra,
segundo o cientista político, em que a aproximação dos mais pobres gera
quase que automaticamente um afastamento da classe média, “é evitar essa
política de soma zero, em que os pobres ganham e a classe média se
considera a grande perdedora – podemos acrescentar a ela os aposentados,
uma legião cada vez maior de eleitores. No segundo turno, além de
manter o discurso para os pobres, será necessário não só Dilma falar
mais para a classe média, como, acima de tudo, sinalizar mudanças
efetivas que atendam às suas expectativas”.
“A classe média quer pagar menos impostos, menos juros bancários e de
cartões; quer menores mensalidades de escolas e planos de saúde e, a
propósito, quer intensificar as políticas regulatórias que incidem sobre
a qualidade dos serviços privados (bancos, telefonia e internet, planos
de saúde, transportes e mobilidade urbana e aeroviária). Ambos, classe
média e o povão, querem mais combate à corrupção e menos denúncias.
Dilma segurou sua votação e ajudou a desidratar a candidatura Marina
quando a qualificou como uma candidatura dos bancos e feita sob medida
para o ‘mercado’. Marina se foi, mas Aécio é quem melhor cabe nesse
modelito”.
A presidenta Dilma reforçou seu apelo político quando abraçou o
discurso da defesa dos direitos sociais e do emprego, das conquistas dos
trabalhadores mais pobres, “como o salário mínimo, da participação e do
combate à corrupção”, sublinha. “Aécio está e estará atrelado à defesa
do mercado, da redução da inflação a 3% – sem qualquer preocupação com o
que isso acarreta na elevação da taxa de desemprego; na obsessão por
dizer que vai entregar a Fazenda ao ex-funcionário de George Soros,
Armínio Fraga”, acrescenta.
“É disso que se trata. É essa a disputa do segundo turno”, conclui.